Casas Bahia vende mais e reduziu dívida. Então por que pediu recuperação judicial?

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Crise da Casas Bahia recuperação judicial prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões, patrimônio líquido negativo em R$ 8,1 bilhões e 298 lojas fechadas expõem uma crise que os juros altos, sozinhos, não explicam por completo.

Na madrugada de domingo, 16 de agosto de 2026, o Grupo Casas Bahia divulgou o balanço do segundo trimestre. O resultado mostrou um prejuízo líquido contábil de R$ 10,1 bilhões, dezoito vezes maior que a perda de R$ 555 milhões registrada um ano antes. Horas depois, a companhia informou, em fato relevante à Comissão de Valores Mobiliários, que havia protocolado um pedido de recuperação judicial. Ao todo, nove empresas do grupo entraram no processo, que envolve R$ 17,3 bilhões em dívidas. É a segunda vez em pouco mais de dois anos que a varejista recorre à Justiça para reorganizar suas contas.

Os números que mostram o tamanho da crise

Alguns dados dimensionam o que está em jogo. O patrimônio líquido da companhia ficou negativo em R$ 8,1 bilhões ao final de junho. Na prática, isso significa que, somando tudo o que a empresa possui em bens e direitos a receber, ainda faltariam bilhões para quitar os credores. Além disso, foram fechadas 298 lojas das bandeiras Casas Bahia e Ponto Frio. Cerca de 1,9 mil postos de trabalho foram cortados, o equivalente a 6,7% do quadro de funcionários. O valor de mercado da empresa na bolsa caiu para R$ 660 milhões, uma fração pequena diante da dívida declarada. Por fim, este foi o oitavo trimestre seguido em que a companhia fecha as contas no vermelho. A sequência começou exatamente no mesmo período em que ela buscou sua primeira reestruturação, em 2024.

A pergunta que fica: como isso aconteceu com uma operação em melhora?

Aqui está o ponto que torna o caso mais interessante do que parece à primeira vista. Isoladamente, a operação da Casas Bahia não estava piorando. A receita líquida do trimestre cresceu 1,6%, para R$ 6,97 bilhões, e o lucro bruto avançou 10,9%. O Ebitda ajustado também ficou positivo, em R$ 518 milhões. Além disso, a alavancagem medida pela relação entre dívida líquida e Ebitda caiu de 2,2 vezes para 0,5 vez em um ano. A dívida líquida recuou R$ 3,8 bilhões no período, e a empresa seguiu gerando caixa livre, R$ 798 milhões no trimestre. Então, por que uma varejista com esses sinais operacionais precisou pedir proteção judicial?

A resposta começa nos R$ 9,1 bilhões em efeitos contábeis não recorrentes, que explicam a maior parte do prejuízo do trimestre. Entre eles estão uma baixa de R$ 5,5 bilhões em imposto de renda diferido, R$ 971 milhões em baixa de ágio e R$ 1,8 bilhão em contingências contratuais. Descontados esses efeitos, o prejuízo ajustado foi de R$ 978 milhões, ainda assim 76% maior que um ano antes. Portanto, o problema não é apenas um número de resultado ruim em um trimestre isolado. Trata-se, na verdade, de uma estrutura de capital que se tornou insustentável mesmo com a operação melhorando.

As causas por trás do pedido de recuperação judicial

No próprio pedido protocolado na Justiça, a Casas Bahia atribui a crise a uma combinação de fatores. O mais citado é o custo do dinheiro. A partir de 2019, a empresa iniciou um ciclo pesado de investimentos em tecnologia, logística e lojas digitais. Nessa época, a Selic estava perto de sua mínima histórica, próxima de 2% ao ano entre 2020 e 2021. Depois, quando os juros voltaram a subir e chegaram à casa dos 15% ao ano, o custo dessa dívida disparou. Ao mesmo tempo, o consumo de bens duráveis, carro-chefe da Casas Bahia, começou a perder força, e a inadimplência das famílias aumentou.

Esse choque de juros pesa mais em um negócio como o da Casas Bahia. Isso porque o modelo de operação depende fortemente de capital de giro, financiamento de estoques, operações de risco sacado com fornecedores e crédito direto ao consumidor. Esses mecanismos funcionam bem quando o crédito é abundante e barato. Porém, eles apertam rapidamente a geração de caixa quando bancos e fornecedores ficam mais seletivos.

Uma reestruturação que só comprou tempo

A reestruturação anterior também ajuda a explicar o momento atual. Em abril de 2024, a empresa homologou uma recuperação extrajudicial que alongou cerca de R$ 4,8 bilhões em dívidas financeiras. O processo foi concluído em apenas três meses. No ano seguinte, parte dessas dívidas foi convertida em ações, o que deu à gestora Mapa Capital o controle de 85,5% do capital da companhia. Assim, a operação ganhou fôlego, mas alongar prazos não resolve um problema de geração de caixa insuficiente para sustentar a estrutura herdada de anos de expansão. Na prática, foi comprar tempo, não resolver a equação.

Por fim, há um gatilho mais imediato. Segundo o próprio pedido de recuperação judicial, bancos vinham retendo garantias sobre recebíveis de cartão e Pix. Isso, segundo a companhia, poderia drenar até 60% da entrada de caixa. Diante desse risco concreto de asfixia de liquidez, a empresa pediu à Justiça a suspensão de cobranças por 180 dias e a proibição de bloqueio de recebíveis. Esse movimento ajuda a explicar por que o pedido veio agora, e não em outro momento.

Nem tudo se explica pelos juros

Seria simplista atribuir a crise inteira ao cenário macroeconômico, como sugere o discurso oficial da empresa. Afinal, os próprios números do balanço mostram uma operação que vinha de fato melhorando: mais receita, mais margem bruta, menos alavancagem. O que parece ter faltado foi velocidade. A recuperação operacional avançava, mas não rápido o suficiente. Faltou ritmo para compensar o peso de uma estrutura financeira montada em um ciclo de juros baixos que já não existe mais. Também pesa o histórico recente da companhia. O plano de transformação de 2023, por exemplo, já havia fechado 55 lojas e cortado mais de 8 mil postos de trabalho, sem resolver o problema de fundo. Dois anos e duas reestruturações depois, portanto, fica difícil sustentar que se trata apenas de um problema conjuntural.

Onde isso aparece na contabilidade da empresa

O caso da Casas Bahia é um exemplo didático de como lucro contábil, geração de caixa e solvência são coisas diferentes. A empresa segue gerando caixa operacional positivo. Ainda assim, isso não impede que o patrimônio líquido esteja negativo, porque o passivo acumulado ao longo dos anos superou o valor dos ativos. Por isso, é possível ter Ebitda positivo e, mesmo assim, precisar de proteção judicial. Isso acontece porque o indicador não considera o peso do endividamento de curto prazo nem a dependência de capital de giro para financiar a operação do dia a dia.

O trimestre também mostra como itens não recorrentes podem distorcer a leitura de um resultado. Um prejuízo contábil de R$ 10,1 bilhões parece indicar uma operação em colapso. Porém, boa parte veio de baixas contábeis pontuais, como ágio e crédito tributário diferido, que não representam saída de caixa no período. Por isso, quem olha apenas a linha final do resultado corre o risco de tirar conclusões equivocadas, tanto para pior quanto para melhor. É preciso separar o que é efeito contábil do que é geração de caixa. Além disso, o uso intenso de capital de giro financiado por terceiros, como o risco sacado com fornecedores, merece atenção. Crescer com dívida de curto prazo funciona bem até o crédito ficar mais caro ou mais escasso. Nesse momento, a mesma estrutura que sustentou a expansão pode se tornar o motivo da crise.

O que o caso ensina

A trajetória da Casas Bahia mostra que reduzir dívida e melhorar margem não bastam quando o problema é estrutural. Uma empresa pode apresentar sinais operacionais positivos, como crescimento de receita, alavancagem em queda e caixa operacional positivo. Mesmo assim, ela pode não conseguir honrar o passivo herdado de anos de expansão financiada a crédito. Para outras empresas, o caso reforça a importância de medir regularmente a dependência de capital de giro de terceiros. Também vale testar, com antecedência, o que aconteceria à operação se o custo do crédito subisse de forma persistente. Assim, essa pergunta não precisa ser respondida sob pressão de um tribunal.

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